






Uma Sociedade Anestesiada
por
Ivan Roberto Capelatto . dezembro de 2008
Duas personalidades se autorizam, desde o fim do século XX e neste início
do século XXI, a mostrar o mosaico de sentidos a que as sociedades se encontram:
Gilles Lipovetsky, filósofo, discursando e escrevendo sobre o que denomina
a "ERA DO VAZIO", e Charles Mellman, psicanalista, insistindo no que chama
de a "ERA DO GOZO".
Estes dois pensadores nos trazem a leitura desta nova realidade, vista e
revista todo o tempo, o tempo todo, na mídia e ao nosso entorno, desta busca
desenfreada do prazer a "qualquer custo", dessa vida que ganha o sabor do
hedonismo imediato e da indiferença ao outro.
A atual situação sócio-econômica mundial traz ao psiquismo - já deprimido
pelo dia a dia exigente - uma "descrença" fundamental no futuro, e o sujeito
humano se torna refém dessa queda no vazio da angústia e na busca do gozo
constante como saída mágica desse sofrimento. Enfim, o sujeito humano, hoje,
se desilude com a perda da esperança no Bem, pois se vê às voltas com antíteses
que lhe tiram , pouco a pouco, a crença na velha máxima de que " o Bem vence
o Mal". O que começa a acontecer? O fenômeno da indiferença, do recolhimento
incondicional da afetividade para dentro do psiquismo - repressão - e a
busca pelo prazer imediato, inconseqüente e que se confunde com a idéia
de felicidade. Descrença no amor, descrença no futuro, descrença na idéia
do bem, descrença na política, na justiça e no parceiro, descrença no estudo
e a certeza de que dedicar-se a algo ou a alguém é "perder tempo".
Enchemos nossos domingos de religiões, crendices, ritos e mitos, mas sem
noção da espiritualidade suficiente para sustentá-los; compramos leituras
de auto-ajuda, na esperança da palavra salvadora e duradoura, mas logo vem
outra, e outra e, não sabemos mais qual é a palavra válida que devemos usar
para sairmos da angústia - vazio - que nos acolhe o tempo todo. Invejamos
o indiferente, que "peca" e ri, dorme e vive com uma felicidade aparente
que nos causa sentimentos de dúvida sobre nossos pensamentos éticos.
O embotamento dos sentimentos do bem, reprimidos pelos poucos lúcidos, e
a liberação das pulsões mais perversas, que representam o prazer para os
indiferentes afetivos, tem sido o resultado e a conseqüência da mudança
de uma sociedade que não produz mais recursos suficientes para suprir de
respostas convincentes as angústias humanas.
Temos, assim, como chamava Freud, o retorno do reprimido, que vai marcar
o reaparecimento do pensamento e do ato perverso em grande escala: o assassinato
de crianças, a pedofilia, a insuportabilidade das frustrações e das perdas,
a não realização do luto, a necessidade de "tirar o bem do outro" - a inveja
- e os atos psicopáticos (ausência de medo e de culpa).
O que fazer? Pensando nas palavras e nas reflexões de Winnicott, psicanalista
inglês, quando um sujeito se torna suficientemente lúcido para cuidar do
outro, esse cuidado - holding - gera auto-estima em quem é cuidado, diminuindo
as garras da angústia, do vazio, e pode gerar também um prazer em cuidar.
Quantos suficientemente lúcidos somos?
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