






Da Tirania ao Caos: como
impor limites sem causar desvalorização
por
Heloisa Sanches Capelatto . janeiro de 2009
Até metade do século XX predominava no processo educacional e familiar a
repressão dos desejos das crianças, acreditando que com isso estariam impedindo
atos inadequados aos padrões sócio-culturais e religiosos. Frases como:
-Nem pense nisso... ;- Isso não é hora para querer..., são alguns dos exemplos
de repressão do desejo.
Tais atitudes geraram sentimentos de impotência ( imaginem o esforço de
uma criança para parar de desejar o proibido ) e inferioridade ( acreditar
que outros conseguiram dominar o pensamento ) causando sérias doenças psicológicas
e psicossomáticas.
Com o advento da psicanálise e avanço dos estudos do desenvolvimento psicológico
do ser humano, estudiosos da área psicopedagogica levantaram a questão do
prejuízo que a repressão exercia sobre a saúde mental, não diferenciando
desejo de comportamento. Criou-se o conceito "liberdade sem limite", que
tomou corpo na Inglaterra, com a criação da Escola de Summerhill. Dava-se
início a uma nova postura de educação, caracterizada por domínio das pulsões
dos pequenos e criação de um caos nos relacionamentos entre aluno-professor
e pais-filhos.
É preciso diferenciar desejo de realização do desejo. O primeiro, é instintivo,
dominado pelo princípio do prazer. O segundo, refere-se ao comportamento,
que pode ser controlado pela razão.
Ao nascermos o que nos domina é o instinto, o Princípio do Prazer. Não temos
controle algum sobre nossas pulsões. Todos nossos comportamentos no primeiro
ano de vida visam a busca de prazer ou fuga do desprazer, sem percepção
do outro e do incômodo que causamos nos que nos rodeiam.
A partir de mais ou menos 1 ano de idade, a percepção e interação com o
outro permite a introdução dos primeiros conceitos de limite - o que pertence
ao eu e o que é do outro.
A colocação dos limites de maneira adequada vai possibilitar um desenvolvimento
psicológico sadio no indivíduo. Vamos conter a manifestação do desejo, se
for necessário, sem criticar, sem cobrar e sem chantagear.
Limite adequado é mostrar ao educando que o momento ou o espaço não lhe
pertence, daí a impossibilidade de realizar seu desejo. Com isso, desperta-se
no educando o desejo de conquistar seu espaço e seu momento. Exemplo: Se
uma criança pede um doce quinze minutos antes do almoço, devo dizer-lhe:
" agora não; você pode come-lo logo após o almoço" e suportar a birra que
com certeza virá, sem mais justificativas. O que normalmente escutamos de
cuidadores inexperientes são frases tipo: " agora não é hora de querer doce"
(crítica) ou " você não percebe que agora não pode comer doce?"(cobrança)
ou "você sabe que me chateia querer doce antes do almoço e assim mesmo faz."
(chantagem).
É difícil suportar as birras e chateações que acompanham a imposição de
um limite. Porém, devemos lembrar que a tarefa de cuidar é uma opção e não
uma obrigação. A partir do momento que se desejou cuidar de alguém, deve-se
estar ciente das dificuldades que serão enfrentadas, e, se necessário, procurar
ajuda de profissionais
da
área.
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