Afetividade, limites e cuidados:
uma necessidade diante da evolução do conhecimento
por Ivan Roberto Capelatto . janeiro de 2009

O conhecimento, o saber, é a base da organização, da saúde mental e da qualidade de vida de uma sociedade. À medida que o saber se resume apenas numa "recepção"de idéias alheias ou, o que é mais perigoso, numa passividade frente a "falas"e "conceitos enlatados", apostilados, sem sabor e vida, esse saber torna-se enfadonho e seu uso torna-se mecânico, esteriotipado ou sem sentido. Quando o saber não é introjetado através do PENSAR, do SENTIR ou mesmo quando não dá lugar à AFETIVIDADE, surge, a nível do ego humano, um sentimento difícil de ser elaborado, compreendido e aplacado: o sentimento de IMPOTÊNCIA.

A impotência é o motor da VIOLÊNCIA, pois o sujeito impotente desenvolve uma forte resistência ao pensamento lógico e à afetividade, tornando-se, desse modo, um ser frágil e dessa fragilidade nasce a necessidade de resolver, de forma narcísica, suas frustrações e sua "inferioridade". Todas as vezes que nos sentimos impotentes, tornamo-nos agressivos e perdemos a noção da ética, trazendo impulsos destrutivos e invejosos.

Quando uma sociedade passa a "cuidar"de suas crianças e de seus adolescentes sem os LIMITES da lei, da regra e da afetividade, essa sociedade vai desencadear o não-uso do pensar, e assim, a desmotivação para aprender é imediatamente a consequência nefasta de tal ato; sem motivação, as pessoas não desenvolvem o sentimento de "querer algo","querer atingir uma meta, um destino"onde possa contribuir para o bem do Outro e de si mesmo.

A violência em todas as suas formas

A violência - expressão máxima do sentimento de impotência - aparece em todas as instituições sociais, desde o núcleo mais íntimo, que é a família, passando pela escola, até atingir as grandes instituições sociais.

Assim, vamos ter o aparecimento daquilo que nomeio "Psicopatologias do Contato", que são:

Familia, escola e violência

A violência na família vai ser mostrada na escola, onde professores, pais e alunos vão se confrontar em nome de "não aceitar"regras, e escola e pais ainda não se definiram sobre qual "pedaço"do aluno/filho pertence a cada um. Assim, o professor, impotente para controlar o comportamento, ou impotente para desencadear o desejo-de-aprender em seus alunos, torna-se violento, agredindo através de aulas perversamente difíceis ou de provas punitivas. O aluno, por sua vez, sem desejo de aprender e impotente contra a instituição, agride o professor, o colega e a própria instituição, criando regras informais e fomentando o aparecimento de gangues - que é o sinal social básico da impotência . E os pais, divididos entre o desejo de ver o filho diplomado e o desejo de ver a escola parceira, agridem o filho e a escola; um com castigos e penas, e a outra, com queixas contra professores e a organização.

A mídia e sua influência na educação

Sabemos que a função mais importante do educador - pais, professores - é mediar a constituição simbólica da criança, constituindo com ela uma parceria fundamental: facilitar, promover e motivar a aprendizagem, assim como permitir o aparecimento de um EU que pensa, que deseja, de distingue, que sente. Quando esses adultos se tornam reféns, junto com seus filhos e seus alunos, de um jogo onde a meta da vida é o PRAZER, sem consequências ou sentido, temos a morte do mediador e, morrendo o mediador, morre a possibilidade da criança tornar-se um EU, um sujeito com desejos e pensamentos próprios. O que torna o adulto - e a criança - refém de uma "linguagem-do-prazer"é o conjunto de mensagens sedutoras, mentirosas e, porque não, violentas, que a mídia joga para dentro dessas instituições fundamentais de vida : a família e a escola.

Falando somente de prazer e poder, a mídia constrói, no imaginário dos consumidores, imagens contraditórias ( quem é o bandido e quem é o mocinho?, o que é bom e o que é mau?, o que é bem e o que é mal?) onde o "belo" toma o lugar do "bom" e o "estético"destrói o "ético". Aquele que quebra as regras é aplaudido, o outro que "venceu" na vida sem estudar é supervalorizado, o violento aparece em todas as reportagens, em todos os vídeos e capas.

Afetividade, sua evolução e seu prejuízo

Lembrando que a estruturação da afetividade se dá em fases - oral, anal, fálica, latência, adolescência e genital - e essas fases têm como condição de realização a presença da educação e do educador, e lembrando que vivemos um momento histórico-social de profunda impotência e enorme violência, é lógico que pensemos que a evolução saudável - sadia - da afetividade será prejudicada. O prejuízo fundamental é a não-evolução psicológica do sujeito de uma fase para outra, evoluindo somente fisiològicamente. Essa distância que vai aparecer entre a maturidade do corpo e a imaturidade do psiquismo pode produzir psicopatologias profundas, que vão das psicoses às psicopatias, onde a maior consequência é o aparecimento das compulsões ao prazer imediato, a impotência para se tornar um EU e o desencadear de uma ação violenta contra tudo aquilo que não significa prazer.

 

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